
- Não ficaste a pensar mal de mim por eu te contar pois não?
- Achas?? Não sei porque todos perguntam isso!
- Olha, porque é assim , as pessoas são assim, olha-nos de lado por fazermos isto ou aquilo, chibam-se, sei lá. É assim e pronto. Mas eu acho que tu és diferente.
- Ninguém é diferente, Carlos. Mas isso não quer dizer que eu vá pensar mal de ti.
- Então achas normal eu drogar-me?
- Eu já acho tudo normal. E além disso, não és o único neste mundo pois não?
- Pois... não. És mesmo diferente, tu. Quer dizer, para gaja. As gajas normalmente ficam todas lixadas com isto.
- Eu não sou uma gaja.
- Sim, uma miúda.
- Estava a brincar contigo.
- Não vais espalhar pois não?
- Já te disse que não, que neura. Se tens tanto medo que as pessoas saibam, pára com isso.
- Achas que é fácil?
- Não acho, nem deixo de achar. Não sei como é. De qualquer maneira, porque fazes isso?
- Olha e tu, porque é que fumas?
- Porque gosto.
- Mas e não sabes que faz mal?
- Claro que sei.
- Então, é o mesmo princípio. Lá porque faz melhor ou pior, é o mesmo princípio. Faz mal mas tu curtes.
- Sim, mas tu gastas um dinheirão nisso. Podias usar o dinheiro para comprar coisas mais úteis.
- O útil é relativo. Eu já dei saltos do caraças para conseguir, juro-te, já vendi jóias da minha mãe e tudo, ela é que nunca me apanhou. Vendi jogos, vendi roupa, imensas cenas. Agora já estou mais estabilizado. Havia alturas em que andava um agarrado de todo.
- Tu és um agarrado de todo. Essas coisas não se controlam, Carlos, e tu sabes.
- Não me dês lições de moral. ok?
- Não te estou a dar lições de moral nenhumas. Estou só a constatar factos. Mas tu é que sabes, eu não me meto na tua vida.
- És das poucas. Como já te disse, és diferente.
- Ninguém é diferente. Ou todos são, é a mesma coisa.
- Achas assim tanto mal de toda a gente?
- Eu? Não. É-me indiferente. Tu é que estavas preocupado em saber se eu ia dizer a alguém não era?
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